Obra de Abel Salazar
“O artista ao criar uma
obra de arte, não tem outra finalidade que não seja o próprio acto de criação;
realiza-se nesse acto e, assim, no acto se resuma a finalidade da obra de arte.
Uma vez realizada, a
obra de arte não mais interessa o artista; é um fruto maduro, que caíu.
Em realidade o artista
não procura nem o Belo, nem o Sublime, nem o Real, nem qualquer outra
finalidade estética; ele realiza-se, simplesmente. A criação de uma obra de
arte é um acto vital, fundamentalmente em nada diferindo de qualquer outro acto
vital. Ora a vida não tem outra finalidade que não seja o seu próprio acto de
viver; a vida é, por sua própria natureza, construtiva, mas a finalidade da
construção reduz-se ao próprio acto construtivo, exaure-se e termina nele.”
…e logo outro lhe
sucede, porque cada deles pertence à mesma cadeia, ou nebulosa, vinda do início
que nunca existiu porque dele não descobrimos sinais suficientes ou seguros, e
continuando e repetindo-se através do infinito…, divago sobre essa passagem de
“O que é a arte?”, de Abel Salazar (Arménio Amado Editor, Coimbra, 1940).
José Luís Porfírio cita-a
e comenta-a, no excelente ensaio/apontamento, rico em inteligência e sensibilidade,
Transparência e Opacidade (catálogo da exposição ‘Transparência Abel Salazar e
o se tempo, um olhar’, Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto, Setembro/Novembro
de 2010).
A identificação do acto
de viver -do movimento incessante da vida, afirmação sempre renovada da vida-
com o acto da criação artística é fascinante, abre a caixa de Pandora e precipita
questões infinitas, também elas infinitas…, e inesgotáveis.
Logo à cabeça do
primeiro capítulo do livro referido, escreveu Abel Salazar:
“Para definir Arte
seria preciso definir Vida; o mesmo é dizer que é impossível definir Arte.”
E, agora, é contigo
amigo; é convosco, amigos.
É connosco.